Consequências climáticas no metabolismo das plantas
O professor Marcos Buckeridge é um dos redatores do próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). No documento, o professor disserta sobre o impacto das mudanças climáticas na América do Sul e Central. Na entrevista concedida ao Climatempo, ele aborda mudanças metabólicas provocadas nas plantas da Mata Atlântica e da Amazônia em consequência do aumento da taxa de gás carbônico (CO2) na atmosfera, bem como efeitos do aumento da temperatura e diminuição da disponibilidade de água.
Estudar a influência do gás carbônico, por exemplo, é essencial para entender as modificações que as plantas sofrem para se adaptarem aos novos tempos. Enquanto nós, seres humanos, ingerimos alimento para adquirir energia, as plantas captam CO2 do ar para armazenar sua própria energia através da fotossíntese. Já é sabido que as mudanças climáticas recorrentes provocam aumento da quantidade de CO2 na atmosfera. Maior disponibilidade de gás carbônico, maior taxa de fotossíntese e, portanto, maior produção de carboidratos pelas plantas. Um primeiro olhar sobre esta nova condição pode nos levar a pensar que é benéfico para qualquer espécie haver mais CO2 na atmosfera, uma vez que estudos mostram que mais CO2 à disposição leva a um aumento da taxa de crescimento da planta. Mas a exposição crônica e constante ao CO2 pode levar a outros efeitos.
Assim como nós, seres humanos, acumulamos gorduras quando comemos demais e gastamos energia de menos, as plantas também acumulam carboidratos demais quando há alta disponibilidade de CO2. O grupo do profº Buckeridge descobriu que plantas amazônicas acumulam uma enorme quantidade de amido nas folhas, uma vez que a taxa de crescimento delas, mesmo aumentada, não dá conta de consumir toda essa energia guardada. É o que o professor denominou de "obesidade vegetal". No caso específico da cana-de-açúcar, este efeito pode ser realmente benéfico, uma vez que, nestas condições, essa planta passa a acumular mais sacarose, o principal produto de interesse pela indústria.
Mas a qualidade nutricional dos alimentos também é afetada com maior quantidade de CO2 na atmosfera. Maior disponibilidade de gás carbônico proporciona maior absorção e acúmulo de carbono na planta, e outros nutrientes acabam diminuindo em proporção. É o caso do nitrogênio componente das proteínas, por exemplo. "Isso pode levar - nós estamos pesquisando isso agora, mas já existem dados sobre isso - a uma queda na qualidade do alimento no futuro, se você pensar que na semente vai ser depositado mais carboidrato e menos nitrogênio", explica o professor. " A qualidade deste produto no exterior pode ser inferior a qualidade que nós temos hoje, o que pode levar a problemas econômicos e problemas de comércio no exterior porque a qualidade esperada pelo comprador pode não ser aquela que nós temos hoje".
Além do CO2, a temperatura e água também influenciam o desempenho de uma planta, seja ela economicamente valorosa ou não. Entenda melhor assistindo à entrevista completa no link: http://www.climatempo.com.br/noticias/178045/marcos-buckeridge-e-adaptacao-do-verde/"

