Poliandria em ferreirinhas

ferreirinhaPoliandria em ferreirinhas

O mundo animal é uma caixinha de surpresas, e a cada novo olhar são novas descobertas. No tocante à reprodução, nos surpreendemos especialmente quando observamos a poligamia, com machos e fêmeas interagindo de maneiras que podíamos duvidar em outros tempos. As ferreirinhas, também conhecidas como dunnocks, (Prunella modularis) da Nova Zelândia apresentam um comportamento reprodutivo um tanto quanto inusitado: além da monogamia, elas também praticam a poliandria, que se define como uma fêmea que se reproduz com vários machos em coalisão.
Tanto a monogamia quanto a poliandria são observadas em populações de ferreirinhas ao redor do mundo. Cada macho ou grupo de machos defende seu território e sua fêmea, apesar de ser comum que machos tentem a sorte em copular com fêmeas de outros grupos, infiltrando seu DNA em ninhos alheios. Quando isso acontece, ocorre a perda de paternidade, ou seja, o “pai”acaba criando um filhote de um macho que não pertence ao seu grupo. A consanguinidade também é comum em populações de ferreirinhas.
Neste estudo, encabeçado pelo professor Dr. Eduardo S. A. Santos, hoje do Departamento de Zoologia do IB/USP, mas anteriormente doutorando da Universidade de Otago, Nova Zelândia, foram revelados alguns aspectos interessantes e intrigantes sobre a reprodução destes passarinhos. Apesar de a consanguinidade ser recorrente nessas populações, foi mostrado que a reprodução com múltiplos parceiros para uma fêmea reduz os efeitos negativos da reprodução entre indivíduos geneticamente aparentados. Além disso, do ponto de vista dos machos, caso os machos do mesmo grupo sejam aparentados (o que foi encontrado em 30% dos grupos pesquisados), a chance de propagação do DNA daquela linhagem é maior. A presença de dois ou mais machos num mesmo grupo reprodutivo também reduziu a perda de paternidade para machos de fora do grupo. Um outro dado interessante foi sobre a dominância dentro de um grupo poliândrico. Assim como em outros animais, há um macho dominante e que chefiará o grupo na defesa do território. Mas essa dominância, ao contrário de outras espécies, não se traduz em um aumento no número de filhotes. Nas ferreirinhas da Nova Zelândia, não há diferenças entre o número de filhotes dos machos monogâmicos, do macho dominante e do(s) macho(s) subordinado(s) do grupo.
O estudo foi publicado na Revista Journal of Animal Ecology, e contribui para o melhor entendimento da evolução e manutenção dos vários sistemas reprodutivos do mundo animal. A Agência Universitária de Notícias (AUN) também publicou matéria completa sobre a pesquisa, que você pode visualizaraqui.
Referência do artigo: Santos, E. S. A., Santos, L. L. S., Lagisz, M., & Nakagawa, S. (2015). Conflict and cooperation over sex: the consequences of social and genetic polyandry for reproductive success in dunnocks. The Journal of Animal Ecology. doi: 10.1111/1365-2656.12432