Em 1975, uma expedição franco-brasileira liderada pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire recuperou alguns ossos de um abrigo calcáreo chamado Lapa Vermelha, localizado no Município de Pedro Leopoldo, na região de Lagoa Santa, Minas Gerais. Trazidos juntamente com outros achados arqueológicos, esses ossos foram remetidos para o Setor de Antropologia Biológica do Museu Nacional (SABMN), no Rio de Janeiro, onde foram identificados e passaram a ser estudados, estando registrados sob o número 1959.

 

As análises realizadas no SABMN, coordenadas pela Profa. Marília de Mello e Alvim, ainda na década de 70, revelaram que os remanescentes pertenciam a um mesmo indivíduo, provavelmente do sexo feminino, que, ao morrer, teria entre 20 e 25 anos de idade.

Mensurações feitas a partir do crânio à época de sua descoberta confirmaram sua semelhança com outros materiais já encontrados na região de Lagoa Santa. Este conjunto de esqueletos pré-históricos, conhecidos desde o início do século XIX, quando os primeiros exemplares foram descobertos pelo naturalista dinamarquês Peter W. Lund, são famosos por sua antigüidade. Em algumas cavernas foram encontrados em associação com ossos de animais extintos (megafauna).

 

O nome "Luzia" foi dado por analogia à famosa "Lucy", um espécime quase completo de Australopitecus afarensis encontrado na África pelo antropólogo norte americano Donald Johanson em 1974, e considerado um dos mais antigos ancestrais humanos conhecidos. Embora "Luzia" seja um exemplar de Homo sapiens, e muitíssimo mais recente que "Lucy", é hoje o mais antigo esqueleto humano conhecido nas Américas (com uma antigüidade de 11,5 mil anos).Como parte do acervo do SABMN, este esqueleto está guardado juntamente com outras coleções oriundas da região de Lagoa Santa. Outros exemplares da mesma população pertencem ao Museu de História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estão a cargo do arqueólogo André Prous. Os espécimes coletados por Lund foram enviados para o Museu de História Natural de Copenhague, Dinamarca, ainda no século XIX. Somente um exemplar recuperado por Lund permaneceu no Brasil, localizando-se na coleção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro. Estima-se que, na região de Lagoa Santa, tenham sido encontrados partes de esqueletos de, pelo menos, quatrocentos indivíduos.

Na década de 90, estudos do bioantropólogo Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo (USP), com a aplicação de uma nova técnica de datação, confirmaram a antigüidade do esqueleto. Este fato, associado aos novos dados craniométricos, deram suporte para a proposição de uma nova hipótese para explicar a ocupação das Américas.

O nascimento de uma estrela

Em 1999 "Luzia" ganhou um rosto. Desde então, imagens de seu rosto têm sido veiculadas repetidamente no Brasil e no exterior.A idéia de dar uma face para Luzia surgiu a partir de uma colaboração entre o Museu Nacional e a rede de televisão britânica BBC, que preparou o documentário "Ancient Voices: Tracking the First Americans", lançado em setembro de 1999. Para que se pudesse reconstituir a face, foi necessário modelar os tecidos musculares, a pele e os demais órgãos, partindo-se da estrutura óssea original, ou seja, do crânio. Uma réplica do crânio de Luzia foi produzida em março de 1999 no Rio de Janeiro a partir de imagens tomográficas, que por sua vez foram enviadas para a Inglaterra. Richard Neave, especialista em anatomia e antropologia forense da Universidade de Manchester, produziu modelos em resina, fiéis ao crânio e mandíbula originais.

As réplicas serviram de base para a composição da estrutura da face, que foi modelada em argila, seguindo os parâmetros anatômicos disponíveis para a reconstituição tridimensional das estruturas como orelhas, nariz, etc., e da espessura da pele humana, a partir de estudos feitos em populações atuais.

É importante que se diga que a face de Luzia representa uma visão artística, porém baseada em dados científicos, de como poderia ter sido a brasileira mais antiga até hoje conhecida. As pesquisas continuam e os métodos de reconstituição facial hoje disponíveis serão certamente aprimorados no futuro. Aspectos anatômicos de Luzia que não se preservaram, como lábios, orelhas, sobrancelhas, cabelos e cor de pele, por exemplo, tiveram que ser reconstituídos a partir da visão do artista/ escultor, com base no que é conhecido para grupos atuais cuja estrutura óssea é parecida. Como tais características são muito variáveis, e têm pouca ou nenhuma relação como os ossos, o aspecto final da face pode ter sido consideravelmente alterado.

Trechos extraídos na íntegra do site do Museu Nacional, setor de Antropologia Biológica. http://www.antropologiabiologica.mn.ufrj.br/luzia/luzia.htm