Pensando em Evolução

Nesta seção temos algumas passagens da vida e do trabalho de alguns cientistas e pensadores que contribuíram para o conceito de Evolução. É impossível citar todos os cientistas envolvidos com um determinado tema, pois o trabalho de um complementa o de outro, e todos têm relativa importância.

 Leonardo da Vinci  Ernst Haeckel  Charles Darwin
 Carolus Linnaeus  Thomas Malthus  Jean Baptiste Lamarck
 Georges Cuvier  Thomas Henry Huxley  

 

Leonardo da Vinci (1452-1519)

Parece estranho lembrarmos de Leonardo da Vinci como um contribuinte para o estudo da Evolução, pois ele é mais conhecido com um artista (Mona Lisa, a Última Ceia, entre outros). Mas ele de fato teve uma das mentes mais privilegiadas e brilhantes de sua época, e de todos os tempos.
Leonardo deixou obsevações e invenções técnicas e científicas em mais de 4000 manuscritos (muito complicados de se entender, pois escrevia da direita para a esquerda e sem lógica alguma de continuidade) que ele pretendia publicar como a "Grande Enciclopédia do Conhecimento"... porém, como vários de seus outros projetos, isto não se tornou realidade. Suas anotações espalharam-se pela Europa em coleções particulares e de Museus importantes. Surpreedentemente grande parte de suas invenções (objetivo e grandiosidade) ficaram desconhecidas até o séc. XIX.
Conhecia muito bem as rochas e os fósseis (na sua maioria moluscos do Cenozóico) do norte da Itália. Sem dúvida ele observou-os muito bem quando servia de engenheiro e artista na corte de Lodovico Sforza , de 1482 a 1499. Com estas observações que realizava no intuito de planejar os túneis e remoção de montanhas, ele caracterizara e entendera o ambiente, decifrando que rochas podem ser formadas por deposição de sedimentos trazidos pela água, da mesma forma que rios erodem rochas levando estes sedimentos em direção ao mar. Ele vizualizou um grande ciclo contínuo... Ainda propôs a lei da Superposição que seria depois completamente desenvolvida por Nicolau Steno em 1669.
No tempo de Da Vinci haviam muitas explicações sobre como podiam existir conchas no cume de algumas montanhas. A primeira delas versava que com o grande Dilúvio (Enchente Bíblica) o mar atingiu o cume das mais altas montanhas durante 40 dias, e a outra defendia que estes fósseis cresceram em cima destas montanhas...
Tais hipóteses foram brilhantemente refutadas por Leonardo; utilizando argumentos lógicos ele propôs algo totalmente diferente, muito parecido com a explicação atual. Para ele estes organismos foram enterrados antes das montanhas existirem da forma como estão... e no passado a região ou estava embaixo do mar, ou foi afetada por enchentes (ele observara as enchentes do Rio Arno e outros rios do norte da Itália...)
Para Leonardo Da Vinci, assim como para os paleontólogos atuais, os fósseis indicam a história da Terra, sendo muito mais antiga do que a própria história da humanidade...

 

 

Carolus Linnaeus (1707 - 1778)

Carl Linné, conhecido por seu nome latinizado, Linnaeus, é considerado o pai da Taxonomia. Seu sistema de classificação, nomeando e ranqueando os organismos ainda encontra uso atualmente (amplamente modificado, é lógico).

Nascido na Suécia no início do Séc. XVIII, Carl teve uma influência direta de seu pai, um exímio jardineiro e padre luterano. Decepcionando sua família por sua completa ausência de vocação e vontade de seguir a carreira eclesiástica, Carl entrou para a Universidade de Lund em 1727 com o intuito de estudar medicina. Transferiu seu curso para a Universidade de Uppsala e gastava grande parte de seu tempo colecionando e estudando plantas, que eram sua paixão verdadeira. (Nota: no currículo de medicina daquela época, botânica era uma matéria importante, pois os médicos ministravam drogas obtidas de plantas medicinais...). Linnaeus gostava tanto desta parte que, mesmo passando privações financeiras, organizou expedições botânicas e etnográficas na Lapônia e na região central da Suécia.
Em 1735 mudou-se para a Holanda para terminar o curso de medicina e continuar seus estudos. Neste mesmo ano publicou seu primeiro livro "Systema Naturae". Apesar de continuar seus estudos de Taxonomia e Botânica, Carl ainda exercia a profissão de médico, tornando-se até médico da família Real Sueca. Seus últimos anos de vida foram marcados pelo pessimismo e pela depressão. Morreu do coração em 1778...

O sistema criado por Linnaeus utilizava basicamente o sistema reprodutor das plantas como classificador, já os sistemas atuais seguem o modelo de John Ray (que utiliza várias evidências morfológicas de todo o organismo em todas as fases do desenvolvimento). A herança deixada por Linnaeus é a classificação hierárquica e o sistema de nomenclatura binomial (ex.: Homo sapiens)
Este sistema hierárquico agrupa os seres vivos em grupos cada vez mais abrangentes. Por exemplo: O REINO animal contém a CLASSE dos vertebrados que contém a ORDEM dos primatas que contém o GENERO Homo e a ESPÉCIE Homo sapiens => esta é a localização do Homem.

 

 

Georges Cuvier (1769-1832)

Em 23 de agosto de 1769, em Montbeliárd, nasceu um dos cérebros mais requintados do Séc. XVIII. Estudou em Stuttgart durante 4 anos, até 1788 e trabalhou em uma família na Normandia como tutor (conseguindo escapar portanto das violentas manisfestações da Revolução Francesa de 1789). Já na Normandia fora nomeado para uma posição no Governo e iniciou carreira como Naturalista.
Em 1795 foi convidado para a posição de assistente do Museu Nacional de História Natural em Paris. Tornou-se professor logo em seguida e permaneceu nesta posição até que Napoleão o nomeou Inspetor-Geral da educação e membro do Conselho de Estado.
Segue um pouco do pensamento de Cuvier: Um organismo é integrado de várias partes complexas que se interrelacionam. Mude uma parte deste todo e você desbalanceará tudo. Sendo assim Cuvier não acreditava na Evolução Orgânica, pois achava que qualquer pequena modificação alterava sobremaneira a capacidade de um animal sobreviver. Estudou gatos mumificados do Egito (quando Napoleão invadiu esta região...) e não verificou diferenças anatômicas com os gatos de sua época. Sendo assim não tinha porque acreditar na Evolução Orgânica.
Cuvier tinha uma habilidade legendária em reconstruir os organismos através de fragmentos fósseis. Fazia isto através de seu conhecimento profundo de anatomia comparada...
Na sua época não se acreditava que Deus poderia simplesmente acabar com uma determinada espécie. Acreditava-se que estas espécies viviam ainda em algum lugar inexplorado e selvagem. Aqui portanto encontra-se o fator mais crucial de todo o legado de Cuvier: o estabelecimento da EXTINÇÃO como um fato.

 

 

Ernst Haeckel (1834-1919)

Haeckel forjou várias palavras utilizadas pelos biólogos como: Filo, Filogenia e Ecologia. Apesar de ter formado-se médico, abandonou a medicina após a leitura de "A Origem das Espécies" de C. Darwin.
Aqui estava um jovem que detestava a visão teológica e mística do mundo. Viu a importância dos conceitos de evolução para montar sua própria visão de mundo.
Tornou-se professor de anatomia comparada em 1862 e estudou profundamente alguns grupos de invertebrados (radiolários, poríferos e anelídeos). Indo muito além da Biologia, estudou Antropologia, Psicologia e Cosmologia.
Formulou a "Lei das Recapitulações" onde coloca que um ser vivo repete toda sua evolução novamente durante a fase embrionária. Ficou famosa sua frase: "A ontogenia recapitula a filogenia". Este conceito foi desacreditado desde o início do Séc. XX.

 

 

Thomas Malthus (1766 - 1834)

Malthus teve uma influência indireta sobre a Evolução pois tanto Darwin quanto Wallace tiveram idéias parecidas sobre o assunto após a leitura do livro das Populações escrito por Malthus.

As suas idéias (T. Malthus era um economista político) basicamente eram de que o nível de condições de sobrevivência estava decaindo devido a basicamente 3 elementos:
- Elevada produção de Jovens (Crescimento vegetativo alto)
- Inabilidade Produtiva de Recursos (recursos escassos)
- Irresponsabilidade das Classes mais Baixas

Estas condições de competição e de aproveitamento de recursos por parte da prole foram os conceitos utilizados.

 

 

Thomas Henry Huxley (1824-1895)

Conhecido como "Bulldogue de Darwin" foi um dos primeiros e mais ardorosos defensores e críticos da Teoria da Evolução por seleção natural proposto por C. Darwin. Mas na verdade ele foi muito mais do que isto..
Nascido em uma cidade perto de Londres o sétimo filho de uma família de oito, não teve uma educação básica muito boa, na verdade só estudou dois anos durante sua infância. Apesar da ausência de educação formal, Huxley adorava ler ciência, história e filosofia. Aprendeu sozinho o Alemão, para poder ler livros que o interessavam. Com 15 anos iniciou um estágio para aprendiz de médico e com apenas 21 anos era cirurgião-assistente...
Jovem, achou fascinante a idéia de trabalhar em um navio da marinha inglesa em viagem para mapear o oceano pacifico (principalmente a Australia e Nova Guiné). Estudou em condições péssimas alguns grupos marinhos, principalmente cnidários, tunicados e moluscos cefalópodes. Quando voltou a Inglaterra compilou seu trabalho e teve reconhecimento da comunidade científica inglesa.
Foi muito importante pela sua posição frente os trabalhos de Darwin, que não aceitou passivamente sem questionamentos, pelo contrário... ele criticou duramente os conceitos de Darwin de que os processos evolutivos são lentos, para ele a evolução poderia ocorrer aos saltos...

 

Charles Darwin (1809-

Em 1809 nasce em Shrewsbury, na Inglaterra, Charles Darwin. Ainda moleque demonstrava um interesse acima do normal pela natureza. Adorava pescar, caçar, colecionar plantas e insetos, isto quando não estava lendo livros de natureza...mas seu pai não via muito futuro neste campo da ciência e sendo médico, enviou o filho para estudar medicina em Edimburgo, na Escócia. Charles não gostava muito da escola de medicina pois achava entediante (apesar de tirar notas razoavelmente boas). Charles saiu de Edimburgo sem graduar-se e foi para Cambridge no Christ College com o intuito de tornar-se um clérigo.


Naquele tempo a maioria dos naturalistas estava no clérigo, pois segundo já vimos anteriormente o paradigma vigente era da Teologia Natural, em resumo, todos os seres vivos tinham sido criados por inspiração Divina, e desde o começo dos tempos já seriam tais como são hoje.
Na escola Darwin tornou-se rapidamente o "protegido" do reverendo (e professor de botânica) John Henslow. Isto foi muito importante pois logo após a sua graduação o prof. Henslow recomendou Darwin para fazer parte da tripulação do Capitão FitzRoy no barco de pesquisa HMS Beagle.


Darwin tinha 22 anos quando zarpou em 1831 com o Beagle com a missão primária de desenhar reentrâncias mal conhecidas do litoral da costa Sul Americana. Enquanto a maioria da tripulação estava descobrindo a costa, Darwin ficava em terra coletando material da exótica flora e fauna até então pouco conhecidas pelos europeus.


Darwin teve a oportunidade de perceber as adaptações que aconteciam de acordo com cada ambiente, sejam as selvas brasileiras, sejam os pampas argentinos e ainda os Andes. Darwin estava estarrecido com as peculiaridades da distribuição geográfica das espécies. O caso que ficou mais famoso foi o das ilhas Galápagos, que ficam cerca de 900 km da costa e hoje pertencem ao Equador. As espécies nestas ilhas são endêmicas porém lembram espécies que vivem no continente sul americano. Darwin quando fez a sua coleta de pássaros não se preocupou em fazê-lo ilha por ilha, principalmente porque ele não tinha ainda idéia do significado que a fauna e a flora teriam para ele depois disso. Neste ponto da sua vida Darwin já estava questionando o conceito estático da Terra. Para ele a Terra evoluía e estava em constante transformação...


Quando Darwin coletou os tentilhões ele não sabia se eram todos de uma só espécie, ou se eram espécies diferentes. Quando ele voltou a Inglaterra em 1836 ele consultou ornitologistas que o disseram que eram espécies separadas. Quando isto aconteceu ele reviu as notas que escreveu durante a viagem e, em 1837, começou a escrever o primeiro de uma série de anotações sobre a origem das espécies...


Darwin então começava a perceber que a origem das espécies e a adaptação ao meio ambiente eram processos muito relacionados.


Nos primeiros anos de 1840 Darwin trabalhou nas bases de sua teoria de seleção natural e mecanismos de evolução, porém ele ainda não havia publicado nenhuma de suas idéias. Mas ele não estava distante da comunidade cientifica da época, pois já era considerado um grande naturalista pelas espécies que enviou de sua viagem com o Beagle e recebia cartas e visitas de cientistas renomados. Darwin tinha problemas de saúde e ficava muito dentro de casa e reunia cada vez mais material para dar suporte à sua teoria. Porém o pensamento evolucionista estava emergindo em diversas áreas e Darwin estava relutante em expor suas idéias para o público da comunidade cientifica... Até que em junho de 1858 Darwin recebeu uma carta de um jovem chamado Alfred Wallace, que estava trabalhando nas Índias Orientais. Na carta Wallace pedia para Darwin avaliar um paper e se considerasse relevante, que passasse para Lyell. No paper Wallace desenvolveu uma teoria de seleção natural essencialmente idêntica a de Darwin... Isto fez com que Darwin apressasse a publicação de "A Origem das Espécies", mas ele primeiro apresentou o trabalho de Wallace juntamente com um artigo que ele próprio (Darwin) havia escrito em 1844 (e deixado com a mulher para que ela publicasse caso ele morresse antes de escrever algo mais completo sobre o assunto) para a Sociedade Linnaen de Londres.


Darwin tinha tanto material para suportar suas idéias, e trabalhou tanto em cima desta teoria que até mesmo Wallace reconheceu que Darwin deveria ser reconhecido como autor principal da teoria. (afinal ele tinha manuscritos de 15 anos de idade...)


As teorias que foram expostas nesta publicação de Darwin foram rotuladas de DARWINISMO.

 

 

Jean Baptiste Lamarck (1744-1829)

Jean Baptiste Lamarck, ou melhor Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck, nasceu em 1 de agosto do ano de 1744, era o caçula de 11 irmãos de uma tradicional família de militares. Começou a estudar em um seminário, mas logo após a morte de seu pai, entrou para o exército para lutar contra a Alemanha. Com a paz declarada em 1763, Lamarck continuou a servir no exército até que um ferimento o forçou a deixá-lo. Tornou-se bancário e começou a estudar medicina e botânica. Em 1778, já era um expert em botânica com o lançamento do seu primeiro livro: Flore Française, ou Plantas da França. Lamarck foi, então, indicado como professor responsável pelo campo de invertebrados do Museu Nacional de História Natural, mesmo quase sem nenhum conhecimento de zoologia de inverterbrados. Na verdade era um campo da Biologia considerado de segunda categoria, muito poucas pessoas estudavam os invertebrados (inclusive o termo não existia na época, quem o formulou foi Lamarck). Mas Lamarck trabalhou duro e desenvolveu este "novo" campo, que é manancial de conhecimento vastíssimo na zoologia.


Lamarck foi o o primeiro a separar Crustacea, Arachnida e Annelida de Insecta, através de seus trabalhos de classificação.
Teve vida marcada pela constante luta contra a pobreza. Luta infrutífera, pois morreu em 28 de dezembro de 1829, pobre. Foi enterrado em um cemitério alugado, de onde seu corpo foi retirado cinco anos depois, e enterrado em lugar desconhecido. Para piorar, ao redor de 1818 ele começou a perder a visão, dependendo totalmente das filhas no final de sua vida, pois estava completamente cego.


Lamarck contribuiu para o pensamento evolucionista pois percebeu algo além da influência passiva do meio ambiente nos organismos. Ele inferiu que mudando o meio ambiente, mudam as necessidades dos indivíduos, que por sua vez alteram os comportamentos para atender à estas novas necessidades. Estas mudanças de comportamento alteram a utilização de determinadas estruturas anatômicas, ou orgãos, que podem crescer ou atrofiar, dependendo do uso. Ele chamou este conceito de "A primeira lei" em seu livro "Filosofia Zoológica"; a "Segunda lei" versava que estas características alteradas pelo uso e desuso seriam hereditárias.


Lamarck ainda via na evolução um contínuo crescente de complexidade, ou seja conforme os seres vão evoluindo eles tornam-se cada vez mais complexos e perfeitos. Lamarck não acreditava em extinção... para ele eram apenas seres que se transformaram em espécies diferentes.


Porém até Darwin, que refutou todas as teorias evolucionistas de Lamarck, reconhece sua importância no processo de construção do pensamento evolucionista.


Não deve-se apenas rotulá-lo como "aquele que errou" pois sua vida dedicada a Biologia, nos mais diversos campos (bem como física e climatologia) permitiu que a comunidade científica da época fizesse correções e respondesse perguntas mais adequadamente.